Canal anuncia série baseada em livro de Fernando Butazzoni sobre ditadura


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A HBO Latin America anuncia que assinou um acordo com o premiado autor uruguaio Fernando Butazzoni para desenvolver uma série a partir do seu livro “Las Cenizas del Cóndor” (ainda sem tradução para o português), publicado em 2014 em espanhol pela Editora Planeta. O romance, baseado em fatos reais, conta a história de um jovem que, em busca da verdade sobre os seus pais biológicos, acaba descobrindo os segredos da sua família adotiva, guardados desde os anos de chumbo das ditaduras na América Latina.

O livro, finalista do Prêmio Vargas Llosa, expõe o maquiavélico Plano Condor, que abriu o caminho para uma brutal repressão durante o período em que ditaduras controlavam países do Cone Sul nos anos 70.

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“Estamos fascinados de poder trabalhar com uma obra literária tão importante na nossa região, escrita por um autor do mais alto nível como Fernando Butazzoni”, afirma Roberto Rios, Vice-presidente Corporativo de Produções Originais da HBO Latin America. “Estamos muito orgulhosos de poder trabalhar juntos para levar essa história à tela da HBO.”

“É uma parte eletrizante da minha vida. Ter toda a equipe da HBO para contar esta história me enche de alegria e de responsabilidade,” diz o autor Fernando Butazzoni. “Mas não estarei sozinho: sei que percorrerei este caminho com a melhor companhia.”

Este novo projeto vem na sequência da recente divulgação de outra produção da HBO Latin America – a minissérie ENTRE HOMBRES, também baseada em uma grande obra da literatura latino-americana – e poucas semanas antes da estreia da segunda temporada da série original O JARDIM DE BRONZE, que teve a primeira temporada desenvolvida a partir do livro homônimo e foi vista em mais de 50 países.

Memorial da Resistência abre exposição sobre memória das ditaduras




“Hiatus” traz obras realizadas a partir do diálogo com o tema da memória, resultado das Comissões da Verdade e a continuidade de violações semelhantes no mundo 

Por Rodrigo Bueno

A partir do dia 21 de outubro, o Memorial da Resistência, instituição da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo, apresenta a exposição “Hiatus: a memória da violência ditatorial na América Latina”. Com curadoria de Marcio Seligmann-Silva, a mostra promove o encontro de oito artistas que vêm se dedicando de modo original e expressivo ao tema da memória, com pesquisas que emergem e dialogam com os resultados das Comissões da Verdade e a continuidade de violações semelhantes no mundo contemporâneo. A entrada é gratuita e a exposição fica em cartaz até 13 de março de 2018, no terceiro andar do Memorial.

Marcelo Brodsky – Foto: Joca Duarte

Participam da exposição os artistas Andreas Knitz, Clara Ianni, Fulvia Molina, Horst Hoheisel, Jaime Lauriano, Leila Danziger, Marcelo Brodsky e Rodrigo Yanes, com obras que passam por diversos suportes, pesquisas e exercícios: instalações (como as de Andreas Knitz, Clara Ianni, Horst Hoheisel Leila Danziger e Rodrigo Yanes), fotografias pessoais com intervenções (como as de Marcelo Brodsky), estruturas cilíndricas com as imagens de mortos e desaparecidos (como a obra de Fúlvia Molina) ou um impactante vídeo sobre um linchamento (obra de Jaime Lauriano). A produção apresentada em “Hiatus” aponta para os dias de hoje, numa memória continuamente atualizada pelo esquecimento e pela barbárie.

Se, durante o período ditatorial, alguns artistas brasileiros resistiram com muitas obras importantes, no tempo pós-ditadura eles, com raras exceções, voltaram-se mais para poéticas formalistas ou para outras agendas temáticas. No entanto, desde 2013-2014 essa paisagem tem se modificado. Uma nova linhagem de produção (pós relatório da Comissão Nacional da Verdade) tem abraçado o desafio de inscrever o passado ditatorial hoje. Pois a memória é ato, ação que se dá no presente e se articulada às políticas do agora.

Serviço

Exposição Hiatus: a memória da violência ditatorial na América Latina

Memorial da Resistência de São Paulo

Sala 1 – 3º andar

Largo General Osório, 66 – Luz

Abertura: de 21 de outubro de 2017, às 11h00

Encerramento: 13 de março de 2018

Funcionamento de quarta a segunda-feira, das 10h às 18h (entrada até 17h30)

Entrada gratuita

Classificação livre




Livro resgata poemas escritos durante a ditadura militar




O livro retrata uma época de fortes transformações culturais entrelaçadas a um momento pessoal de um estudante de medicina no auge de sua vida poética

Por Redação

A Idea Editora acaba de lançar “Arqueologia de um poema romântico– anos 70”, o mais recente livro do médico José Antônio Garbino. O livro retrata uma época de fortes transformações culturais entrelaçadas a um momento pessoal de um estudante de medicina no auge de sua vida poética.
 
 
O autor trata da realidade coletiva ao narrar em versos a passagem da juventude para a idade adulta e abre espaço para outras vozes, explorando o sofrimento, os desejos e angústias. São experiências poéticas pessoais e coletivas, da época em que viveu em repúblicas e vagava pelas noites atrás de amores. Era um momento em que ainda estava tateando a vida, influenciado pelos filósofos existencialistas e pelo pensamento antiditadura.

As poesias descrevem esse período em quatro partes, a perplexidade, o romantismo desvairado, a melancolia e a cartase, esta última fase já na passagem para a década seguinte, onde mostra em seus versos um amadurecimento e uma postura mais realista.

“Arqueologia de um poema romântico– anos 70” também traz ilustrações e fotos do próprio autor. Segundo ele, essas representações eram uma maneira de participar da cultura estudantil da época e retratar as incertezas vividas.

Este livro revela muito bem “o poeta”, faceta de sua escrita, que foi mais forte nos anos 70, pois foi montado com os escritos que estavam perdidos. “Eu desenterrei peça a peça, limpei cuidadosamente e depois as estruturei em um corpo novo. Foi um trabalho de arqueologia”, explica o autor.

Boitempo lança novo romance de Ivone Benedetti: Cabo de Guerra




História invoca fantasmas da sociedade brasileira: os dois polos da ditadura militar

Na diminuta estante da ficção ambientada nos anos de chumbo, Cabo de guerra destaca-se por erigir em personagem central um “cachorro”. Assim era designado pela repressão o militante da luta armada que, traindo seus companheiros, punha-se a seu serviço como espião. Simulando uma fuga da prisão, ou outro truque qualquer, o cachorro retornava a sua organização para coletar informações que passava a seu controlador. Poucas expressões do jargão da ditadura foram tão pertinentes quanto esta, de duplo sentido, exprimindo ao mesmo tempo subserviência canina e baixeza de caráter.


A formação de um cachorro, seu treinamento e sua reintrodução na organização de origem já como agente, tornou-se uma das mais sofisticadas operações dos órgãos de repressão, o polo oposto da sanguinária tortura. Infiltrados em quase todas as organizações clandestinas, os “cachorros” desempenhariam papel crucial na liquidação final dos militantes dessas organizações, decidida pelos militares a partir de 1973, ao se vislumbrar no horizonte o fim da ditadura. Liquidar de vez os militantes passa a ser a prioridade da repressão, ainda que às custas de expor a identidade dos seus “cachorros”. A forma utilizada foi a do “desaparecimento”. Os militantes eram sequestrados e assassinados à margem do sistema legal de repressão, e seus corpos dispostos de modo tal que jamais fossem encontrados.

O “cachorro” de Cabo de guerra é um tipo medíocre, que se deixa levar por qualquer um. Um pobre de espírito e um fraco de caráter. É mais por acaso do que por convicção que ele chega à luta armada e também por acaso se torna informante das forças de repressão. Nem foi preciso torturá-lo. A história é narrada em primeira pessoa por ele próprio, que intercala aos episódios da trama central, recordações de uma infância traumática, na qual testemunhou a morte violenta do pai. Sofre, por isso, surtos alucinatórios.

O título remete à disputa que se deveria dar na mente de um “cachorro” entre a força maligna que o leva à traição, alimentada basicamente pelo oportunismo e o instinto de sobrevivência, e uma suposta força contrária oriunda do impedimento moral de todo humano à traição e à desonra, mas quase inexistente no sinistro personagem deste Cabo de guerra e obviamente derrotada.


No final da década de 1960, um rapaz deixa o aconchego da casa materna na Bahia para tentar a sorte em São Paulo. Em meio à efervescência política da época, que não fazia parte de seus planos, ele flerta com a militância de esquerda, vai parar nos porões da ditadura e muda radicalmente de rumo, selando não apenas seu destino, mas o de muitos de seus ex-companheiros.

Quarenta anos depois, ainda é difícil o balanço: como decidir entre dois lados, dois polos, duas pontas do cabo de guerra que lhe ofertaram? E, entre as visões fantasmagóricas que o assaltam desde criança e a realidade que ele acredita enxergar, esse protagonista com vocação para coadjuvante se entrega durante três dias a um estranho acerto de contas com a própria existência. Assistido por uma irmã devota e rodeado por uma série de personagens emersos de páginas infelizes, ele chafurda numa ferida eternamente aberta na história do país.

Narradora talentosa, Ivone Benedetti tem pleno domínio da construção do romance. Num texto em que nenhum elemento aparece por acaso e no qual, a cada leitura, uma nova referência se revela, o leitor se vê completamente envolvido pela história de um protagonista desprovido de paixões, dono de uma biografia banal e indiferente à polarização política que tanto marcou a década de 1970 no Brasil. Essa figura anônima será, nessa ficção histórica, peça fundamental no desfecho de um trágico enredo.

Neste Cabo de guerra, são inúmeras e incômodas as pontes lançadas entre passado e presente, entre realidade e invenção. Para mencionar apenas uma, a abordagem do ato de delação política não poderia ser mais instigante para a reflexão sobre o Brasil contemporâneo.