Enquanto as Crianças Dormem reestreia no Teatro Viradalata




Por Andréia Bueno


Após uma bem-sucedida temporada de 02 meses, no Teatro Aliança Francesa, o espetáculo Enquanto as Crianças Dormem, reestreia no dia 15 de setembro para uma curta temporada no Teatro Viradalata
Foto: Leekyung Kim
Nesse novo texto, um antimusical tragicômico, Dan Rosseto que também assina a direção, discute o que o ser humano seria capaz de fazer para realizar os seus sonhos.
Enquanto as Crianças Dormem, conta a história de Kelly (Carol Hubner) uma fã do musical O Mágico de Oz, que trabalha como atendente de uma rede de fast-food e sonha em imigrar para a América e se tornar uma atriz de musical na Broadway.
Sem perspectivas para realizar o seu desejo, a mulher fantasia sua rotina transformando em números musicais momentos da sua vida: um dia difícil na lanchonete se torna um show onde ela é a grande estrela. Mas como a vida não sorri para a mulher, à medida que a história avança ela acumula experiências ruins, fazendo com que os sonhos se transformem em pesadelos terríveis.
Num inusitado encontro no supermercado, Kelly vê uma possibilidade de transformar o seu sonho em realidade ao conhecer Ellen (Carolina Stofella), uma mulher disposta a financiar passagem, passaporte e dólares para bancar as suas despesas na América.
O elenco além das atrizes Carol Hubner e Carolina Stofella, conta com os atores, Diogo Pasquim, Guilherme Araújo, Haroldo Miklos, Juan Manuel Tellategui, Roque Greco e Samuel Carrasco. A peça tem a trilha sonora original composta pelo cantor, ator e compositor Fred Silveira.

Serviço
Enquanto as Crianças Dormem
Teatro Viaradalata
Rua Apinajés, 1387 – Sumaré. 241 lugares (Estacionamento conveniado em frente) 
De 15/09 até 27/10 (Sexta 21h) 
Informações: 3868 3525
Ingressos: R$ 50,00 (inteira) e R$ 25,00 (meia) 
Duração: 120 min 
Classificação: 14 anos

Resenha: Enquanto as crianças dormem




Por colaborador: Paulo Afonso

A cáustica metamorfose do sonho. Ou um autor que não dorme no ponto.

Você, zelosa mamãe, que tal contribuir para mais um big dia solidário, com parte de nossa renda destinada ao tratamento de crianças portadoras de câncer, enquanto você se alivia da culpa de entupir as artérias de seu próprio filho com a gordura trans de nossos hediondos lanches?!

Fotos: Leekyung Kim

Quem observa uma sociedade marcada por hipocrisias como essa, percebe que não é por acaso que “Enquanto as crianças dormem“, texto inédito, escrito e dirigido por Dan Rosseto, tem sua sequência inicial numa franquia americana de fast-food, ou melhor, nos bastidores dela, após o expediente, quando seus felizes clientes não podem ver claramente o lixo que consomem. Kelly (Carol Hubner, liderando com desenvoltura o ótimo e bastante homogêneo elenco) é uma funcionária de lanchonete tolerante a toda a sorte de humilhações e sevícias de seu gerente (Juan Manuel Tellategui, ótimo) a fim de sustentar a ilusão de tornar-se uma grande estrela de musicais na Broadway. Seu patrão e seus colegas de trabalho são tristes representações de opressão e, de certa forma, reprojetam nela a sua própria miserável existência.

A montagem não é um musical tradicional: é mais uma tragicomédia musicada, que mostra, em tom irônico e amargo, a desmaterialização do sonho, e o quanto um mundo aparentemente inofensivo pode transformar-se em pesadelo. Não há figurinos exuberantes, nem cenários suntuosos. E as coreografias são leves e carregadas de comicidade. Mordaz, amparado num texto recheado de boas sacadas, é exatamente aí que Rosseto acerta em cheio o tom de “antimusical”, e já prepara o seu espectador nos primeiros minutos: o que ele verá a seguir não terá a sina de dias felizes e mensagens edificantes. Kelly é uma Cinderela às avessas, e também não é por acaso que nossa anti-heroína encontrará numa rede de supermercados a sua fada-madrinha (Carolina Stofella, perfeita, indo do cinismo ao drama), que em vez de varinha de condão ostenta uma tornozeleira eletrônica, aquela que lhe dará a grande chance de tentar a sorte nas terras do Tio Sam.


Após uma explosão de revolta por não tolerar mais a violência diária a qual é exposta, Kelly comete um assassinato, e vê-se num caminho sem volta, concordando com a proposta da “fada”. E a crítica inicial do autor ao consumo do lixo que começa no estômago, acaba nele mesmo, no próprio estômago: muitos papelotes ingeridos é o preço de cruzar a fronteira do sonho. Não sem antes colocar as crianças para “dormir”, o sono dos anjos será a ponte mais cruel dessa travessia. Impressiona o desembaraço com que Rosseto consegue tocar em temas difíceis e ironizá-los, empregando em sua narrativa desde a fantasia dos contos de fada, até os truques sujos e nada inocentes do consumismo barato, encarnados na figura do Mestre de Cerimônias do supermercado (Diogo Pasquim numa atuação sensacional em que se desdobra em muitos). Inteligente, o autor reitera a morbidez no início do segundo ato, e consegue manter um humor irresistível na sequência absurdamente surreal do necrotério, em que um médico legista (Haroldo Miklos, excelente) interage com um cadáver enquanto dubla Mariah Carey. A cinefilia do autor (não sei se conscientemente) evoca com agilidade temas que vão desde canibalismo ao tráfico de drogas. Há referências (muito bem empregadas, diga-se) de “Tomates verdes fritos”, “Dançando no Escuro’, “Maria cheia de graça” e “O Fantasma do Paraíso”, entre outras. Na penúltima parte, a montagem ganha tons mais pesados ao narrar o desfecho da aventura de Kelly, e cai um pouco por não conseguir manter o humor negro congruente a todo o restante do espetáculo. E é improvável que alguém conseguisse tal feito. Mas se recupera na ensandecida e ótima cena final, em que Kelly sente-se finalmente uma estrela. “Eu não disse que ficaria famosa, que minha imagem apareceria em todos os jornais e meu nome estaria em toda a parte?!” Ela orgulha-se ao dizer algo mais ou menos assim.

Em tempos assustadores em que criminosos como o goleiro Bruno, e Suzane Von Richthofen tornam-se celebridades, cheios de fãs que os requisitam para selfies e autógrafos quando saem às ruas, “Enquanto as crianças dormem” pode ser interpretado como uma reflexão urgente e necessária sobre uma sociedade doente e enlouquecida que, pior que isso, age com normalidade diante da caótica realidade em que vive.